O PS apronta o combate das "autárquicas" indicando a nível nacional os candidatos à presidência das Câmaras com mais peso simbólico, a do Porto e a de Lisboa. Se José Sócrates foi o rosto da vitória de Fevereiro, o PS apresenta Francisco Assis e Manuel Maria Carrilho como os rostos da vitória que pretende em Outubro. Parte das razões para votar PS em Outubro no Porto e em Lisboa são semelhantes às que levaram o eleitorado a dar a vitória rosa em Fevereiro. Em Lisboa, até se dá o caso do mesmo primeiro-ministro, nº 1 do PSD, que liderou o governo do descalabro, ser o presidente da Câmara que deixou Lisboa num buraco maior do que o do túnel do Marquês e do Terreiro do Paço juntos! E no Porto, o líder camarário, nº 2 do PSD, esteve sempre unha com carne tanto com o governo de Barroso que levou a economia ao estado actual, como com o de Santana Lopes, que foi o que vimos. Mas há razões locais para mudar e já. O Porto que teve um ascenso de importância política até 2001, com a Câmara a dinamizar a economia conseguindo chamar o investimento público, contrabalançando a tendência centralizadora que desviou numerosas sedes de empresa para a capital, voltou com Rui Rio ao marasmo e se alguma coisa mexe em matéria de obras públicas foram os projectos obtidos durante a dúzia de anos socialistas e deixados no terreno, como o Metro, a Casa da Música e de todas as alterações viárias. Se exceptuarmos a destruição das tílias e o asfaltamento do troço entre o Castelo do Queijo e António Aroso destinado às corridas dos amigos do Sr. Presidente, não há uma obra lançada pelo actual executivo camarário! No que mexeram, fizeram-no mal e tarde, como é o caso do túnel de Ceuta que estaria pronto sem imbróglio se concretizassem o projecto inicial. No que era preciso mexer, como no absurdo do Metro à superfície no S.João, o Sr. Presidente do Metro, Rui Rio, não existe. Se não está lá a fazer nada, por que se mantém a receber os milhares de euros do bolso de todos nós? Sim, sabemos que em Lisboa muita gente considera o Dr. Rui Rio um bom presidente de Câmara do Porto. Mas essa não é uma boa razão Nem há só razões negativas para ser necessário o eleitorado dar a volta à situação do Porto. A principal é pela positiva. O Porto bateu no fundo, tem de dar a volta por cima. Tem que reganhar a confiança e começar a trabalhar. Francisco Assis é suficientemente jovem para ser dinâmico e idoso para ser sábio. Sabendo que a maior sabedoria está em ser capaz de mobilizar a massa cinzenta, viva e pensante, para governar com eles e entrar numa vida nova. Ademais optou pelo Porto. Deputado europeu, presidente do PS/Porto, ex-líder parlamentar, ex-presidente de Câmara de Amarante, ao contrário da maioria, preferiu lutar por ser presidente no Porto do que ser ministro em Lisboa. Eis uma virtude que o Porto apreciará. E se for presidente da Câmara do Porto, as únicas promoções possíveis são para Primeiro-ministro ou para Presidente da República. Ou para presidente de Câmara do Porto. A vida nova que se espera que o Porto inicie com Assis tem de estar ligada a projectos empresariais capazes de relançarem a economia portuense e apostar na inovação e na excelência que permitam à cidade vencer os desafios do presente. O Porto tem de estar na primeira linha dos planos nacionais de incrementação tecnológica e de estudar de imediato as apostas concretas na matéria. A Câmara tem de saber juntar e apoiar as pessoas neste desiderato. Pois ao contrário de Lisboa, em que a Câmara imerge na panóplia institucional do Estado, no Porto, a Câmara emerge como o verdadeiro governo da cidade, simbólica e politicamente, com efeitos evidentes em toda a região, não podendo deixar de ter em conta que vive com uma das mais poderosas universidades do país que tem também muito para dar à economia da cidade, da região e do país. Tem aliás de incrementar uma vida democrática que honre a cidade e as suas tradições liberais, em que os projectos sejam postos à vista dos cidadãos para serem discutidos, melhorados, não feitos nas suas costas como se os cidadãos fossem os inimigos a ludibriar. Como tem de retomar a vida cultural, agora no contexto da existência da Casa da Música, continuando a formação de públicos mas incidindo no apoio à produção artística dos seus agentes, secundarizados tradicionalmente pelo poder central, ajudando-os a produzir e a colocar os seus produtos no interior e sobretudo no exterior. Mas os socialistas no governo do Porto não podem deixar de dar uma atenção especial à questão social que em grande parte se prende com os bairros sociais, mas atravessa todos os sectores, desde o empresarial do emprego e da riqueza, até ao educativo e cultural, passando pela saúde e luta contra a toxicodependência. Assis e a sua equipa vão ter muito que fazer. Não teria sentido que apresentassem ideias concretas antes de serem eles apresentados ao país e à cidade. Mas o segredo da sabedoria política democrática está em saber juntar as pessoas, ouvi-las e perceber que um presidente de Câmara em vez de um autocrata deve ser um intérprete dos anseios e das melhores virtudes de uma cidade. Pegando e trabalhando com o melhor da criatividade e acção de todos, deixando para trás o derrotismo e a passividade. É assim que fazem os grandes intérpretes.