Da Casa da Música ao Circuito da Ferrugem
Pedro Baptista
A Casa da Música que hoje se inaugura será, ao lado da setecentista Torre dos Clérigos, o grande ex-libris arquitectónico da cidade do Porto, marcando o arranque portuense e europeu do Século XXI.
Se no início muitos olhavam com suspeição o objecto estrambótico que o holandês ali estava a plantar, a verdade é que o “objecto” cedo se impôs e hoje são muito mais as vozes que se erguem contra as construções que possam ofuscar o edifício, do que os que torcem o nariz ao “modernismo”.
Vozes que se preocupam com a envolvência do edifício com toda a razão. Não se trata de se ver ou não se ver o mar do edifício como alguns têm caricaturado, mas de ver ou não ver devidamente aquele diamante arquitectónico lapidado pela vasta equipa de trabalhadores liderados por Koolhaas que é a Casa da Música e que, lado a lado com Serralves - e por que não com o Estádio do Dragão - coloca o Porto num lugar de destaque da criação arquitectónica do roteiro cultural de toda a Europa.
Infelizmente na Câmara do Porto ninguém percebe isto. Rio e confrades olharam sempre a Casa da Música como uma inutilidade inventada pelos socialistas que só servia para gastar dinheiro, uma bizantinice que não passava dum sorvedoiro dos recursos, um fardo a suportar com grande sofrimento, uma chatice para a gestão e sobretudo uma perturbação para a sua vida mental. Não é de espantar, pois é a ideia de Rio para com toda e qualquer expressão da cultura. Não tira a pistola ao ouvir falar de cultura como o Outro, mas considera-a uma inutilidade frívola. Por isso a forma como a Câmara do Porto encarou e continua a encarar a Casa da Música, nomeadamente em relação à envolvência paisagística, como de resto encara toda a cultura portuense cujo apoio camarário recuou trinta anos, nos últimos quatro.
Só há uma vertente que interessou (e interessa) Rui Rio e confrades “laranjas” na Casa da Música: a dos lugares de gestão. Aí trataram do assunto na malha fina! E até temos um presidente do Conselho de Administração que clama para que não se politizem os lugares de gestão da CM! Nem Omo, nem Tide, nem sequer líxivia, um espanto de limpeza da consciência! Como se ele, e maior parte dos que foram nomeados, não o tivessem sido exactamente por exclusivos critérios político-partidários!
De outra forma não se compreenderia como pululam pelos edifício “contabilistas” videirinhos da política “laranja” totalmente desqualificados, e a Casa da Música não surge identificada com o rosto e com o nome de um dos que foi a sua “alma parens”: Pedro Burmester.
De resto o modelo de gestão e o financiamento apresentado pela Ministra da Cultura parece equilibrado e capaz de propiciar o funcionamento de uma parceria pública/ privada, desde que ambas as partes não se eximam na prática à sua quota da responsabilidade.
O Porto dispõe a partir de hoje de equipamentos de grande nível na rubrica da exibição de espectáculos de médio dimensão, continuando, no entanto, a ter défice de equipamentos culturais noutras rubricas, como nas de apoio aos grupos de produção cultural e na de um grande espaço para espectáculos de grande dimensão, como seria adequado para quem se pretende pólo aglutinador no Noroeste Peninsular.
Infelizmente, outros equipamentos como o Edifício Transparente, pelo motivo político-partidário de a direita poder dizer que foi uma obra inútil, manteve-se ao abandono e á degradação durante quatro anos e o que hoje poderia ser um lugar de animação cultural, recreativa e comercial, é um mamarracho inútil, que Rui Rio assim quer manter, porque não tem competência para o rendabilizar e porque o quer utilizar como apoio para o “circuito da ferrugem” que quer transformar na sua “obra de regime”.
Rico “regime” com paradigmas assim!
Em 59 e 61 as corridas foram o presente e o futuro. Hoje nem são corridas, nem presente, nem futuro, apenas passado, cuja infância ou adolescência gostamos de recordar nas horas de nostalgia, mas de que não vivemos. Nem nós, nem uma cidade como o Porto, podem viver do passado, a não ser para fazer comparações que nos esclareçam...
Por exemplo: comparar o tempo em que se trouxe para o Porto o “Património Mundial” e o Metro, se fez o Parque da Cidade, o teatro da Vilarinha, o Ballet-teatro e o teatro do Campo Alegre, se impôs o S. João e Serralves, se comprou o Rivoli, se recuperou o Coliseu, se trouxe a “2001” no qual se inclui o Carlos Alberto e a Casa da Música, se impôs para o Porto boa parte do “Euro 2004”, com a obra de Rui Rio: discórdia, marasmo, vazio, guerra às instituições da cidade, incompetência, precipitações e, por fim, a grande obra para o que se malbaratam mais de seis milhões de euros, o circuito da ferrugem para a brigada do reumático da Câmara! Ridículo! Depois da destruição das tílias na Boavista, do arranque dos carris e da asfaltação, é a vez da Rua da Vilarinha que nunca teve nada, mas lembraram-se agora de que deve ter asfalto… e dois mesinhos de pá, pó e pica. Só para as Elviras não tremerem no paralelo a deixarem cair os parafusos! As prioridades da Câmara do dr. Rui Rio! Ainda por cima mini-circuito de poluição brutal em torno de um espaço verde!
É chato comparar? Mas não terá de ser?
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