Mais uma vez se cumpriu o ritual de verão
Mais uma vez se repetem as mesmas imagens na televisão
Mais uma vez se repetem os mesmos pedidos de declarações de calamidade pública
Mais uma vez se repetem as mesmas acusações quanto a responsabilidades e irresponsabilidades
Mais uma vez se repetem as mesmas receitas estafadas.
O país está a arder......
Como sempre, em Agosto

Entretanto, Agosto, chegará ao fim…
O campeonato da bola já começou.
Os políticos estão quase a regressar de férias
A campanha para as autárquicas vai entrar em “full steam”
A pré-campanha presidencial está quase a arrancar.
Ainda temos o arranque das aulas e o preço dos livros de estudo para animar a “pré-época”….
Com sorte, teremos mais um qualquer crime chocante (se possível com crianças)...
As televisões vão inventar novas novelas e novas imbecilidades para “nos” entreter…
Com mais ou menos ajuda dos bombeiros, os incêndios lá hão-de acabar por se apagar …
E, daqui a quinze dias, ninguém torna a falar dos incêndios, até ao próximo ano…
Ou seja, tudo como dantes neste belo rincão à beira-mar.
Tudo como dantes????
Não
Este ano viu-se algo de diferente.
Bem, não exageremos, vimos nós (e vocês) que "andamos" pelos Blogs.
E o que temos então de novo este ano?
Temos um governo que já não é da coligação PSD/PP e uma “direita profunda” (seja lá o que isso for, mas eles gostam que se diga “liberais”) que descobriu a “blogosfera” e, por via desta, a ilusão de que existe.
E assim, surpreendentemente, temos esses paladinos do mercado e da iniciativa privada a ocupar páginas e páginas de “Blogs” e respectivas caixas de comentários a debater o que “o Estado” (e não os privados) devia ter ou não ter feito para prevenir ou evitar este ano, esta tragédia.
A discutir a forma como “o Estado” (e não os privados) devia ter coordenado o combate aos fogos.
A discutir a forma como “o Estado” (e não os privados) deveria ter negociado o aluguer ou aquisição dos meios ou equipamentos de combate aos fogos, etc.
Enfim, assiste-se, na “blogosfera da direita”, a uma interessantíssima forma de analisar esta peculiar forma portuguesa de celebrar o verão (o incêndio das bouças) para uma catarse de “mal dizer do governo”, mas afinal, defendendo exactamente o contrário daquilo que, no resto do ano, dizem ser essencial garantir.
Entretanto:
Aqueles que realmente, e na prática, criam as condições para o desenvolvimento da sua actividade económica, sem precisarem do aval do Estado, lá vão ateando os incêndios ou pagando a quem o faça por eles.
Aqueles que se poderiam então designar, verdadeiramente, por “arautos do ideal liberal”, lá vão fazendo os seus negócios, milionários ou nem por isso, à volta dos incêndios:
Seja por via da venda ou aluguer dos meios de combate aos incêndios e outros equipamentos.
Seja por via da comercialização da madeira queimada ou seja lá qual for o tipo de interesses que se desenvolvam em torno das áreas e materiais queimados.
Seja por via do controlo das direcções das associações de bombeiros, ligas e corporações e, assim, de todas as negociatas inerentes.
Seja, finalmente, aproveitando aquilo que na forma de subsídios ou outras benesses, o "Estado", no final, venha a disponibilizar para o apoio aos verdadeiramente afectados (assim a modos de “baixas colaterais”) mas que, ano após ano, vamos sabendo que raramente chega ao seu destino.
Qual a conclusão a tirar, se alguma houver:
Os incêndios da floresta em Portugal não são afinal, para todos, uma tragédia.
Serão uma tragédia para as suas vítimas directas, que perdem vidas, ou bens.
Serão uma tragédia para aqueles que, na primeira linha do combate, perdem o seu tempo, a sua saúde e, quantas vezes a sua vida, para ajudar os seus concidadãos.
Serão uma tragédia (mitigada é certo) para todos os contribuintes que, afinal, tem que pagar o elevadíssimo custo, para a sociedade, deste ritual de Agosto.
Para aqueles que, desta actividade, fazem o seu “ganha-pão” (e aqui “pão” deve entender-se no sentido mais lato) não passa disso mesmo, duma fase de um processo económico, de criação de riqueza, da qual, como afinal deve ser, são os “mais aptos” que retiram os maiores benefícios, e a grande massa dos menos competentes que, naturalmente, tem que suportar os custos.
Mas, é assim mesmo o mercado, ou, na sua versão mais “humanista” (coff, coff) ...
É a Vida
António Moreira