ESte blog é o SEDE, não é? os socialistas em debate? É que, peço desculpa aos que são completamente alheios às nossas andanças internas, mas tenho de falar mesmo de nós. A falha não deve ser grande, uma vez que a curiosidade perversa sobre a vida interna deste
albergue estranho que é o PS-Porto não me parece que esteja circunscrita a alguns de nós.
Tinha pensado em contribuir para o SEDE com um post. Tinha até pensado em fazer algumas considerações em torno dessa necessidade dos sonhos, de um país que nos permita sonhar, a que o Avelino se referiu. Queria retorquir-lhe com alguma reflexão sobre a pesada e incontornável realidade e eis que essa mesma realidade me caiu em cima, enquanto associado desse distinta e às vezes sombria agremiação partidária que é o ps, com toda a sua rude espessura.
Parece que no dia 12, isto é, 3 dias após o acto eleitoral de domingo, vinte colegas da Comissão Política Concelhia do PS-Porto, resolveram subscrever um requerimento a pedir uma sessão extraordinária daquele órgão, com vista à apreciação dos resultados eleitorais. Isto é eufemístico, é claro, o que se pretende é apreciar a derrota e, realisticamente, cinicamente, apurar de que forma é que essa
derrota de todos - ou não foi uma derrota de todos? - se pode transformar numa vitória interna de alguns.
Ajustes de contas, portanto.
No dia 13, o jornal
Público noticia que vinte membros da CPC do Porto vão pedir essa reunião e um dos subscritores adianta até já as conclusões: trata-se de uma pretendida reunião com fins expiatórios, na qual se identificará o
bode para o sacrifício, abatendo-o e, dessa forma, com essa libação, poder-se-á então seguir em frente, com uma nova ordem estabelecida. O
"bode" está até já encontrado, tem nome e, com base numa eficaz técnica de montagem do acontecimento, está já construído o
discurso legitimador desse sacrifício.
No mesmo dia 13, quatro dias após o acto eleitoral em causa, reuniu-se pela primeira vez após a derrota, o
Executivo da estrutura concelhia, tendo como ponto de agenda precisamente reflectir sobre os resultados eleitorais, com vista à convocação de uma comissão política concelhia (
para os desconhecedores: órgão de carácter mais deliberativo e, por isso mesmo, de composição mais alargada - com o mesmo propósito). Isto é, o órgão executivo pretendeu cumprir cabalmente a sua função e exercer a competência estatutária recomendada face ao resultado eleitoral. Todavia, foi confrontado com o dito requerimento dos tais vinte voluntariosos membros da Concelhia.
Ora, tudo isto permite-nos vaticinar o pior. Lutas fraticidas, em nomes dos interesses e dos protagonismos, sem uma única ideia ou projecto diferente em causa. Como é habitual. Mas peço ainda assim a vossa paciência para algumas cogitações em torno de tais manobras.
É corrente nas assembleias gerais, seja de que associações for, a competência estatutariamente dada a parte dos seus membros (1/4, 1/3 ...) para desencadearem o agendamento de reuniões extraordinárias. Trata-se de uma competência cautelar e que visa, de um modo geral, s
uprir a eventual inércia da Mesa ou de quem tem por competência estatutária original a convocação dessas reuniões.
Não é normal que se desencadeie esse mecanismo excepcional a toda a pressa e com toda a urgência, como se se pretendesse que a reunião a marcar resulte mais de uma exigência "das bases" do que da iniciativa espontânea de quem tem de a convocar. Ora, a sofreguidão revelada nesta urgência tem apenas e só
objectivos políticos específicos, absolutamente estranhos à agenda da reunião que se pretende ver convocada.
Mais estranho ainda - ou, pelo contrário, mais esclarecedor ainda desses propósitos ínvios - é o facto de, antes mesmo do requerimento colectivo ter chegado aos
jornais antes de ter chegado ao seu destinatário, acompanhado das considerações, que há-de ser o quadro de fundo das intervenções que se pretendem ver produzidas na reunião que se exige - o que a mais de ser uma deselegância e uma descortesia, é uma atitude eticamente censurável.
Bom, esta lamentável externalização de questões internas ou do foro interno de um Partido dá, pelo menos, azo a que este vosso amigo possa aqui também abrir o resto da janela para que se faça o resto da luz que falta sobre tal assunto.
O que se pretende é um
ajuste de contas.
Não importa que o Dr. Assis tivesse muita dificuldade em "passar" no eleitorado portuense, apesar do seu inequívoco empenhamento, o qual não me merece a mínima censura, bem pelo contrário.
Não importa que o candidato socialista à Câmara não fosse o originalmente preferido pelos socialistas, quer na Concelhia, quer nas Secções, tendo-lhes sido, ainda que com elegância, imposto - mas sempre a fazer adivinhar uma menor mobilização ou, pelo menos, uma mobilização menos espontânea.
Não importa que a situação económica e financeira do país, com sacrifícios para toda a gente, levasse as pessoas a votarem, em alguma medida também, em protesto contra o Governo, por muito que os entendidos neguem este facto elementar.
Não importa que as pessoas mais simples da nossa cidade - as tais que vivem nos bairros sociais - dêm mais valor a uma porta nova em casa, às paredes pintadas e a umas persianas iguais às da vizinha que aqueles senhores simpáticos da Câmara cá vieram pôr do que ao MédiaParque ou ao Centro Empresarial de Ramalde ou à afirmação da cidade no noroeste peninsular.
Não importa que o eleitorado não tenha dono, apesar de muitos de nós, em todos os partidos, estarem convencidos de que são donos de parcelas ou fatias do eleitorado.
E
não importa que ele não seja leal e dê facadas, como alguns eleitores que votam normalmente na CDU o fizeram desta vez, votando noutras propostas. Porque essa é a essência da democracia e sem a mudança do sentido de voto dos eleitores não há alternância no poder.
Não importa que alguns socialistas com responsabilidades, ainda em tempo de campanha eleitoral, tenham vindo admitir, em declarações públicas, que o PS ia perder no Porto, adiantando já os nomes dos culpados, que agora, de novo, se reiteram.
Não importa nada disso. O que importa é aproveitar o momento, no mais impúdico oportunismo político de que me lembro de ter assistido nos últimos tempos.
Quero dizer que acho muito bem que se disputam as lideranças internas. Que se assumam diferenças e se combata por elas. Que cada um se movimente para a concretização dos seus desígnios e aspirações. Mas o que me parece é que
estas coisas não podem ser feitas como se valesse tudo. Ou então vale. Até pagar a prótese ortopédica daquele militante, porque ele "vale" (?) cem votos -
este exemplo é uma ficção, qualquer semelhança com a realidade é uma mera coincidência - ou levar a jantar aquelas trezentas almas "que estão connosco" (
falo em abstracto, não me refiro a ninguém em concreto), mas que nunca estiveram nas acções de campanha, ninguém as viu! Para que servem tantos militantes, se ficam em casa, quando o Partido disputa eleições tão importantes como estas últimas e apenas aparecem para os jantares e para os passeios? Terão ao menos votado PS?
Tudo isto me envergonha! Está aparentemente de volta um velho PS, com práticas arregimentadoras, que empobrece a prática política, acentua a perda de credibilidade e que até pode sustentar-se nos améns internos de umas centenas de seguidores.
Mas que não recolhe a admiração da Cidade e essa é que decide quem a governa. Não recolhe a aprovação dos portuenses e esses é que são determinantes para as eleições a doer. Merece a repulsa pelos métodos usados, até pode ganhar, mas não passará onde verdadeiramente seria importante que passasse. E de si mesmo ficará apenas a marca de quem não quer outra coisa que não seja a perpetuação da capacidade de influência e o poder ilusório, como se uma e outra coisa fossem, afinal, valores em si mesmos.