quarta-feira, março 22, 2006

De volta ao debate

Como se tem voltado a questionar a eficácia do nosso sistema político, quer aqui, quer, por exemplo, n”A Baixa”, onde vai animado o debate com a participação até de figuras mediáticas como o Rui Moreira e o Rio Fernandes (desculpem lá a falta dos Dr.s) eu gostava de encontrar quem me pudesse ajudar na solução para as minhas perplexidades.

Para evitar a artilharia pesada de outras vezes, vou começar devagarinho…

Então alguém me explica, por favor, que sentido faz realizar as eleições num único dia, das 08:00 às 19:00, tudo em segredo e após um dia de “reflexão”?
Faz sentido?
Alguém me explica que sentido?

Não seria melhor alargar o prazo da votação, digamos de segunda a sexta, com informação constante da evolução dos resultados?
E, se na sexta a percentagem de votantes ainda fosse inferior a 65% (por exemplo), por que raio não poderia haver um período extra até domingo?
Isto tudo, naturalmente, sem interromper a campanha eleitoral nem nenhuma daquelas “picuinhices” que parece que o Mário Soares está sempre a violar :-)

Então digam-me lá em vossa opinião.
Quais as vantagens e desvantagens quer do sistema actual, quer da alternativa que apresento?

Ou será que isto também não se pode discutir?

António Moreira
(Já agora, este foi o "post" nº 1.000 aqui do Sede)

CAIXA DE COMENTÁRIOS REABERTA

22 comentários:

maloud disse...

Obviamente que o dia de reflexão se tornou obsoleto. Agora termos divulgação de resultados no decorrer do acto eleitoral, parece-me perigoso, porque pode reflectir-se nos mesmos. Alargarmos o período de votação só penalizaria mais os pobres que estão nas mesas de voto. Ou estavam mais tempo, ou maçavam-se mais pessoas.
Gostaria é que o acto de votar deixasse de ser aquela coisa soturna de Bic presa por cordel. Também aí há que fazer um choque tecnológico. E porque não, tomadas todas as precauções, votarmos por internet? Se conseguimos fazer transferências de milhares de euros e movimentos em bolsa, onde estará a dificuldade de criar um sistema confidencial, fiável e seguro. E não me venham com o argumento que muitos cidadãos não teriam acesso, portanto seria factor de desigualdades. Também nem todos têm carro, para se deslocarem até à mesa de voto, e esta para uns fica ao pé da porta, e para outros fica a uns quilómetros.

fortuna disse...

oh! meus amigos

Isto é tudo uma questão de custo beneficio, certo?
Será que faz realmente alguma diferença introduzir este tipo de alterações? Será que não temos outras coisas mais importantes sobre as quais reflectir e actuar?
Vejamos, a duração do acto eleitoral; quem está nas mesas de voto é pago, se não me engano a 14 contos ao dia. não são "aqueles pobres que ali estão a sofrer". Não, há disputa e da séria para conseguir um lugarzito na mesa, que 14 contos são 14 contos. Se a eleição decorresse durante uma semana seriam 14 contos vezes 5 com possibilidade de alargar a 7, isto é, alargava-se pois então. E 14 vezes 7 são quase 500 euros vezes um minimo de 3 que às vezes são 6 ou mais dá uma pipa de massa. Mesmo que o numero de mesas diminuisse, dado o prolongamento temporal, seria sempre uma enorme pipa de massa.

fortuna disse...

Bom, quanto ao voto electronico, bolas. Já começo a ficar farto de tudo que é electronico. Bolas outra vez. Votar é um acto de cidadania, se o cidadão nem se digna sair de casa para votar, olhem, bolas. Até hoje que me lembre acho que não falhei nenhuma eleição. Esta coisa da liberdade e da cidadania tem um preço, qualquer dia querem o voto por telepatia ou por adivinhação.
Eu levo os meus filhos comigo até à urna para que eles saibam, de pequeninos, o valor daquilo que o pai vai fazer e para que nunca deixem que lhes tirem essa conquista. Não os quero a votar uma instrução codificada em binário. As coisas tem que se sentir. É preciso sentir que num dado momento toda uma comunidade se empenha numa escolha que é comum a todos e a todos compromete. Se se puder votar pela internet qual é a diferença para o jogo de computador ou para aqules sondagens de opinião? Não passa a ser a mesma coisa? Eunão sei estar dessa forma na vida.
Vou guardar para sempre a imagem dos timorenses todos em fila para ir votar, em condições realmente adversas. Há certas modernices que francamente me irritam.

fortuna disse...

Quanto à evolução dos resultados, a mim parece-me evidente que condicionaria os mesmos. Só falta saber se seria para melhor ou para pior. MAs tambem acho que é uma questão dematuridade democratica. Valerá a pena estar a inventar sistemas sofisticads de divulgação in time dos resultados só para caçar mais alguns votos? Ou se calhar para perder outros tantos de pesoas que até já nem iriam votar caso soubessem como as coisas estavam a correr?
Não, julgo que não.
Aperfeiçoar um sistema é sempre possivel, mas temos que ter consciencia que há um ponto, em todas as tarefas, a partir do qual não vale a pena ir mais além, sob pena de desvirtuar o objectivo da tarefa.

maloud disse...

Caro Fortuna,
Voto desde as eleições para a Constituinte. Aquelas que tiveram filas enormes e pequena abstenção. Pela primeira vez, podíamos expressar o que queríamos. E todos estavamos recenseados. Já não eram só os homens, já não eram só alguns. Éramos uma espécie de timorenses, sem a ameaça dos indonésios.
Hoje já não é bem assim. Mesmo nas últimas legislativas, em que houve uma espécie de sobressalto cívico, a abstenção ainda foi muito grande. Se a possibilidade do voto electrónico reduzisse o número de abstencionistas, acho que seria bom. Seríamos mais a participar da vida colectiva. O meio pode ser muito romântico{ também eu levei os meus filhos, hoje já não levo, porque vão pelo seu pé votar e nunca se abstiveram}, mas eu tinha em vista o fim.

maloud disse...

Caro Fortuna,
Desconhecia que os membros da mesa fossem tão bem pagos. Julgava que seria uma remuneração simbólica.

AM disse...

Caros Maloud e Fortuna

Obrigado por, ao menos, se dignarem a comentar.

Agora o que gostava é que alguém me explicasse o sentido da coisa...

Porque raio é que tem que ser assim, tipo concurso público de carta fechada, quando, a meu ver devia ser mais tipo uma negociação aberta?

O argumento dos pobres coitados das mesas de voto, ou do custo que a coisa podia ter...

Claro que o voto via internet, multibanco, ou outro sistema qualquer (ou várias opções em conjunto) resolvia isso facilmente, só quem não "gostasse" (como o Fortuna) é que teria que se dar à maçada, ou ao prazer, de ter que ir à Junta de Freguezia (à que desse mais jeito, claro) para gozar da nostalgia da Bic, do papelzito dobrado em quatro e da urna.

Francamente Fortuna, isso já só faz sentido no Burkina Fasso ou na Flórida de Bush.

Se as pessoas podem e devem dar-se a algum trabalho em prol da sociedade?
Claro!!!!
Mas não é a ir por cruzinhas em papeis, Fortuna, não.
É a informarem-se, é a procurarem saber quais são os seus direitos, as suas obrigações, o que defendem estes ou aqueles candidatos que pretendem o seu voto, e não apenas a saberem o que se passa nas novelas, nos big-brothers ou nos futebóis, isso sim Fortuna, é o tipo de trabalho a que a cidadania devia obrigar, o que o Fortuna fala, isso das bichas e das mesas de voto, é apenas folclore e nostalgia.

Eu também votei para a constituinte e para uma série delas, até perceber o que estava a fazer.

A que é que isso levou?
A este sistema corrupto que elege cavacos e rios, valentins e fátimas?

Que coloca no poder um partido que se chama socialista e, na prática, é o que se assiste?

O Fortuna está cheio de "electrónicas"...
Eu não, eu até gosto de electrónica, destes "choques tecnológicos".
Se calhar é porque ainda tive que aprender a usar régua de cálculo, antes de haver calculadoras, porque tive que usar estiradores, réguas, canetas e tinta nanquim, noites a fio, que não havia computadores, nem ploters nem autocads.
Agora é verdade que a tecnologia deve servir para criar mais riqueza para todos e não para criar desemprego e miséria.
Mas isso a culpa não é da tecnologia, mas sim daqueles que vocês escolhem (à moda antiga claro) para gerir esta nossa sociedade.

Que a prolongamento do prazo para se votar e o conhecimento da evolução da votação iria condicionar os resultados?
Claro !!!
A ideia é mesmo essa, deixar de ser esta democracia a fingir, tipo um qualquer desporto em que ganha quem conseguir (com a ajuda dos senhores da C.S.) enganar mais "papalvos" e passar a haver um voto mais consciente, mais informado.

Agora se nem em algo de tão pouca influência, se pode pensar em questionar, será que vale a pena discutir seja o que fôr?

AM

maloud disse...

A minha dúvida sobre os vários dias para votar, com informação sobre os resultados, é se isto não se tornaria numa espécie de jogo de futebol {pela hora a que escrevo verão que estou contente} em que os adeptos corriam para as mesas ou para a internet, com o mesmo fervor das "claques". Estamos a perder? Ai é! Vamos lá puxar pela equipe. Estamos a ganhar? Ai sim, óptimo escuso de me maçar. Depois ainda há os que, não tendo equipe, estão sempre do lado do vencedor.

Mª da Luz disse...

Pergunta que gostava de fazer: agora é Am e não AMNM? Continuação de bom trabalho

AM disse...

Cara Mª da Luz

De manhã sou AM (de tarde também) :)

AM disse...

Cara Maloud

O sistema de votação actual, das 08 às 19, com mesa de voto, barraquinha, cordel e BIC, fazia sentido, fazia até todo o sentido, quando era o único possível.

Admito até que haja quem aprecie o cerimonial da coisa, afinal vai a família toda, com as vestes domingueiras cumprir, religiosamente, o seu acto de cidadadania.

Dentro do local a coisa também tem o seu ritual, as pessoas na bicha, chega a sua vez, dirige-se à mesa, diz o nome, entrega o cartão, o nome é conferido na lista, devolve cartão, entrega boletim de voto, o cidadão dá meia volta, dirige-se à cabine de voto discreta, no segredo do confessionário cumpre a sua obrigação, marca a cruzinha no local certo do boletim, cautelosamente dobra-o em quatro, sai da cabine e dirige-se novamente à mesa, com o seu segredo bem guardado, para, finalmente, o confiar à urna.
Estende a mão a todos os elementos da mesa (como viu na televisão) e sai para o exterior impante com a satisfação do dever cumprido.
O resto do domingo terá sempre um sabor especial…
Soa familiar?

É evidente Maloud (ao menos para mim) que isto não faz qualquer sentido, é evidente também que não é a sua substituição por um método melhor que vai “salvar a democracia”, é apenas um exemplo do que é necessário desmontar (principalmente nas cabeças) para que se possa construir algo de melhor.

Por maior que sejam as recordações ligadas a cada peça de mobília, se queremos renovar a casa temos que nos desfazer da mobília velha…

Eu falei de 2ª a 6ª, com prolongamento possível até domingo, pois, é que não queria chocar, assim, logo de entrada….

Mas, porque é que o voto, a escolha, não pode ser feita durante um período mais alargado?
Digamos 3 meses, os últimos 3 meses de uma legislatura (se entretanto eu não tiver destruído esse conceito de legislatura…)

Claro que o cidadão “eleitor” pode mudar de ideias, durante esse período...
Qual é o problema?
Altera o seu voto!

Claro que as políticas a votos podem ir sendo afinadas, alteradas, explicadas, combatidas, pelos seus proponentes durante esse período.
Claro que os comportamentos menos correctos, as incoerências, as hipocrisias, podem ser denunciadas, esclarecidas, rebatidas, durante esse período

E daí?

Teríamos um sistema em que os eleitores exerceriam a sua escolha de forma mais consciente, mais informada, mais empenhada, mais exigente….

Pois.

Compreendo o risco que isto representa….

AM

obreiro disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
am disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Antonio Almeida Felizes disse...

Caro Antonio Moreira,

Neste momento sobre esta matéria o que mais se discute são dois pontos que eventualmente antecederão esta sua reflexão.

Assim, discute-se, a exemplo da Belgica, a obrigatoriedade de votar. Quem não o fizer será "multado" - qualquer coisa como 100 euros.

A outra discussão anda em torno do voto pela Internet (USA). Qualquer cidadão poderá obter uma senha de acesso ao sistema de voto electrónico e deste modo, sem sair de casa, poderá exercer o seu dever e direito de voto.

Cumprimentos,
AAF - Regionalização

AM disse...

O último comentário assinado AM não foi colocado por mim ??????

António Moreira

SEDE disse...

Aviso

Apaguei o "comment" pirata.

António Moreira

am disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
SEDE disse...

Caixa de comentários encerrada

rb disse...

Estou fora desta poslémica deste post, embora me pareça mais do que óbvio que os resultados eleitorais só podem ser divulgados depois de terminada a votação. Concordo com o voto electrónico.
Além disso, queria congratular o ANMN pela reabertura dos comentários. Sei que tem sido alvo de torpes ataques, mas devo dizer-lhe, relembrando um anterior comentário que fiz, que se pôs a jeito. Agora, resta ignorar e pronto.
Hoje vale a pena ler e discutir estes dois excelentes artigos de opinião:
"Já Está: 18.º Lugar", JMF;
"A crise e o casino", VD.

Atentamnete,

;-)

SEDE disse...

Caro Atento

Obrigado pela contribuição :-)
Naturalmente que o objectivo deste post era discutir alguns aspectos do acto eleitoral em si, se faz sentido manter tudo como está, o que pode e deve ser alterado e o porquê.

Infelizmente é para mim cada vez mais óbvio que a cultura maioritária na nossa sociedade é avessa ao debate de ideias.

AM

maloud disse...

Penso que aqui se exprimiram visões diferentes. O "postador" defende que o período de votação seja alargado e com divulgação quase online dos resultados parcelares e a introdução de novas tecnologias na forma de votar. O Fortuna rejeita qualquer mudança ao sistema existente e fundamenta. O Atento e eu concordamos com a introdução do voto electrónico e rejeitamos o resto. Ambos fundamentamos as razões da concordância e da discordâncisa. Se isto é ser avesso ao debate, então eu não sei o que é debate.

SEDE disse...

Hehe Maloud

É também por isso que eu levo, tantas vezes, na cabeça :-)

O que eu escrevi (e mantenho) é que:
«Infelizmente é para mim cada vez mais óbvio que a cultura maioritária na nossa sociedade é avessa ao debate de ideias.»

Claro que nem a Maloud, nem o Fortuna, nem o Atento, nem o Felizes, ou seja aqueles poucos que vieram efectivamente debater se enquadram naquilo que eu referi como: «cultura maioritária».

Agora que o debate é escasso assim, eu acho que é.

Um abraço
AM