quinta-feira, janeiro 26, 2006

Quanto Porto é bom para o Porto

Estive ontem presente no Café Majestic para assistir ao debate, organizado pela Juventude Popular, sob o tema “Quanto Porto é bom para o Porto”.

Que bom foi estar novamente numa “tertúlia” de discussão com Rui Moreira, Rio Fernandes e Rogério Gomes, e que falta vão fazendo mais iniciativas do género.

Fundamentalmente em discussão estava a ideia (peregrina?), retomada recentemente por Paulo Rangel, nas conferências da Católica, de avançar com a fusão entre os municípios do Porto e de Vila Nova de Gaia.

Confesso que não é tema que me provocasse grandes entusiasmos, não que entendesse que daí viesse um maior mal ao mundo, mas também por me parecer pouco provável que alguma panaceia milagrosa pudesse germinar de tal casamento.

Sempre considerei que uma sociedade medíocre, dirigida por uma “elite” de medíocres dirigentes partidários, que vão penando na província apenas por não terem conseguido assegurar um qualquer cargo “nacional” (donde, necessariamente, na capital), e sufragada, bovinamente, por uma sociedade local amorfa, não se regenera e levanta pujante de energia por mera acção de uma putativa união que lhe confira estatura e dimensão metropolitana.

Basicamente, Rui Moreira defendia a ideia que a forma era importante, ou seja de que ao avançar com um casamento de papel passado entre o Porto e Gaia, talvez também com Matosinhos, se ia o (novo) município apresentar “à sociedade” com uma força que não teria sem essa formalização.
A excelente capacidade de argumentação de Rui Moreira convenceu-me das vantagens deste modelo.

Já Rio Fernandes defendia que, mais importante do que a forma era a função, ou seja que mesmo não havendo qualquer fusão era já possível e desejável que se implementasse uma cooperação intermunicipal adequada, em diversos domínios específicos, com transferência de competências e meios dos municípios para eventuais “autoridades pluri-municipais” a criar, por acordo, para o efeito.
Ou seja, em lugar de um "casamento, de papel passado e tudo" defendia o conceito das “uniões de facto” alargadas também a Gondomar, Maia e Valongo.
A, também excelente, capacidade de argumentação de Rio Fernandes, convenceu-me, também, das vantagens do modelo por si apresentado.

Ou seja, conclui que ambos tinham razão e que as ideias que defendiam podiam, sem grandes dramas, ser harmonizadas.
Da mesma forma que é possível (e desejável (?)) experimentar em “união de facto” antes de avançar para a formalização de um casamento.

No entanto, após uma boa noite de sono, continuo, como antes, convencido que a coisa não tem pés para andar.

As pessoas, pois o problema está nas pessoas, não são diferentes se o seu território estiver FORMALMENTE organizado desta ou daquela maneira.

As pessoas, pois o problema está nas pessoas, se não viram o interesse ou não foram capazes de se organizar em “união de facto” até aqui, porque raio é que vão ver esse interesse agora ou passar agora a ser capazes de assumir um compromisso de partilha?

Porque esta é a altura propícia, dado virem aí três anos sem eleições, foi um dos argumentos ouvidos.
E daí?

Será que os dirigentes locais dos partidos vão, por isso, passar a pensar pelas suas cabeças sem antes perguntar às direcções partidárias o que devem pensar?

Será que as direcções partidárias vão analisar o problema e as possíveis soluções à luz dos interesses do país, das cidades e das populações ou à luz dos seus interesses partidários?

Será que as direcções partidárias vão analisar o problema “de per si” ou será que as suas posições vão ser condicionadas pelas posições dos outros (assim como foi com a Regionalização) tipo se o PS for a favor, o PSD e o CDS tem que ser contra e vice-versa?

Enfim, será que com os actuais presidentes das câmaras do Porto e de Gaia, alguém acredita que isto sequer se discuta? (deixo aos leitores com mais imaginação as fantasias quanto ao tipo de discussões que isso iria dar..).

Em resumo e acima de tudo:

O importante é que se vá discutindo
O importante é que pessoas de boa vontade se vão juntando para analisar e procurar soluções para os problemas que são de todos.

Desta vez foi iniciativa da JP e quase não vi lá ninguém (tirando uns dois ou três) que não estivesse ligado ao CDS/PP.

Poderiam e deveriam (ao menos para isso sirvam os tais três anos sem eleições) realizar-se debates e tertúlias regulares, com organização conjunta dos diversos partidos (mas sem claques) ou por iniciativa de algum jornal (ou da ACP) mas convidados de todos os partidos (e não só) para se começarem a debater seriamente os assuntos da cidade e da política em geral.

Ou se calhar

Nem vale a pena.

António Moreira

2 comentários:

fortuna disse...

E se, de repente, um velho conhecido lhe oferecer flores?
Então porque não agora? Qualquer altura é boa para casar.
Bem, talvez a primavera seja melhor, não sei. Mas porque não?
Repare Moreira, não é argumento o do momento temporal. Assim como não é o das eleições. O que é preciso é vontade.

Antonio Almeida Felizes disse...

Esta confusa autarquia "Portogaia" parece que está na moda entre os políticos e aspirantes a políticos cá do burgo.

Será que é difícil perceber que esta eventual autarquia não traria nada de substancialmente novo.

É uma visão idílica e romântica pensar-se que todos os gravíssimos problemas derivados da centralização e da macrocefalia de Lisboa se resolveriam, como por magia, pela enorme energia descentralizadora libertada pela junção do Porto, Gaia e outras.

Será que esta será a solução para:

1 - Nos valer face aos indicadores económicos, sociais e urbanísticos relativos à região Norte, que se depara com um muito preocupante declino dos níveis de desenvolvimento atingidos outrora.

2- Inverter a perda sucessiva pelo Norte e muito especialmente do distrito do Porto, do peso, importância e poder no panorama nacional, induzindo a perda de poder de compra e a consequente degradação da qualidade de vida.

3- Impedir a deslocalização para Lisboa dos centros de decisão dos maiores grupos empresariais e de outro tipo de instituições.

Sinceramente penso que não,

Cumprimentos,

Antonio Felizes