quinta-feira, junho 23, 2005

Jardins!

Depois do repto da Raquel Seruca e em pleno período de reflexão sobre a cidade, no decurso da pré-campanha de Francisco Assis e dos esforços para a elaboração do seu Programa, importa aqui, no SEDE, falar também de jardins.
Porque todos os dias ouvimos maldizer o betão e ouvimos quem o maldiz depositar toneladas de esperança numa cidade mais verde, ecológica, cheia de jardins. A expectativa e a ânsia por uma IDEIA DE CIDADE diversa da que vivemos. Uma ideia de cidade que vai surgindo por estes lados e que se vai contrapor a uma outra, da qual em tempos já aqui falamos.
Por isso, JARDINS!...na esperança de que não haja nenhum paisagista por perto.

Antes de tudo importa salientar que um jardim é sempre uma apropriação da natureza. É sempre um lugar de recriação da natureza pelo homem e, portanto, um produto da criação humana. O jardim tem sempre contido esse duplo sentido, de modelação da paisagem e de apropriação da natureza. Por um lado a vontade de recriar, ordenando, para satisfação do gosto, por deleite e prazer. Por outro a necessidade de conter, de limitar e dominar, dispor, muito ligada à incerteza dos tempos e à (in)disponibilidade dos meios.

Para uma reflexão mais cuidada convêm também referir que o jardim, num sentido lato, ou os vários tipos de jardim, tem na sua génese uma ideia de paraíso. O jardim como oásis, como o espelho de céu. A ideia da natureza aperfeiçoada, como a teria concebido o criador no Jardim do Éden, que de diferentes formas é comum às grandes religiões. Curiosa comunhão esta…

Depois é também importante considerar que, como em todas as criações do homem, também os jardins sofreram o seu processo de evolução. Talvez se possam considerar dois principais saltos, ou rupturas conceptuais nessa evolução. Um primeiro com inicio no iluminismo e afirmação definitiva no romantismo que transporta o ideario do jardim da sua relação com o divino ( a paisagem como natureza criada por Deus) para uma compreensão já racionalizada e função do homem correspondente à modernidade (não confundir com movimento moderno). Um outro já em pleno sec. XX que “abstractiza” o jardim, isto é, faz corresponder a criação paisagística à afirmação da arte moderna, numa explosão da exploração formal e cromática.

A contemporaneidade reserva-nos outros desenvolvimentos que levam a criação para novos patamares, abrangendo em definitivo todos os sentidos do homem, mas cujas principais expressões se situam ao nível das texturas e dos aromas.

Será ainda possível explorar os aspectos sensoriais do equilíbrio na concepção de um Jardim? E poderemos faze-lo no Porto? Poderemos romper com a tradição romântica dos palácios de cristal, tal com foi feito na Cordoaria?
Não será o nosso orgulho romântico patente em cada canto da cidade mais uma expressão do nosso provincianismo? Gostamos assim tanto da calçada dos Aliados e das magnólias? Aliás, porque é que gostamos dos Aliados? Eu não tenho visto ninguém por lá…

Vejamos outros tipos de jardim!

Jardim Inglês - Este jardim consiste na exploração dos grandes planos verdes do chão e das massas de vegetação diversificada, pontuados por acontecimentos (peças de arte ou outros) que se descobrem à medida que se efectua um percurso livre e aleatório. Possivelmente aquilo que imaginamos mais próximo do “Jardim do Paraíso”. É a natureza aperfeiçoada.


Jardim Francês - Com muitas semelhanças com algumas culturas ancestrais do oriente, que não a china ou o Japão, o Jardim Francês consiste do desenho geométrico e rigoroso do espaço, articulando percursos com massas verdes ordenadas, em função de significados específicos, sendo o mais frequente e importante a relação do traçado com o observador. Sendo que esse observador especifico, aquele que usufrui do jardim em toda a sua plenitude e o domina integralmente é um só e ocupa um só ponto. O domínio de um homem (aquele que está entre Deus e os outros homens) sobre a natureza e os restantes.

Jardim Árabe - Em geral (mas não obrigatoriamente) com um fortíssimo traçado geométrico de estrutura genericamente quadripartida, neste jardim a presença da água é determinante. Já não é o elemento verde o essencial, mas sim a presença da água e os jogos de sombra. Para alem destes, os elementos que o caracterizam são diversificados, embora sejam sempre semelhantes, desde o tipo de pedra aos mosaicos e aos pavimentos.



Jardim Romântico - Espécie de expressão final do Jardim Inglês, do qual diverge na escala, na presença quase permanente de “ocorrências” e na introdução de conceitos geométricos distintos. É por excelência o espaço paisagístico da ascensão da burguesia e onde esta melhor reflecte os seus valores. Pontuado por grutas, conchas de onde corre água, recantos, lagos e estátuas, com significados simbólicos que se sucedem e se sobrepõe, traduz uma “racionalização organicista” do espaço, planeado para ser intensamente vivido pelo homem urbano, mas sempre de acordo com o respectivo modelo social.



Jardim japonês - Aquele onde a colocação dos elementos no espaço mais procura o sentido da harmonia e da conjugação das “forças da natureza”. Onde as pedras tem uma importância equivalente à vegetação e à água, bem como aos restantes elementos. Onde a ligação ao espiritual é permanente e o equilíbrio constante.



Jardim Português - Sem dúvida o mais universal de todos os tipos de jardim. Consiste na colocação, algures num espaço verdejante, de uma mesa e algumas cadeiras. Este tipo de distribuição dos elementos no espaço não é de forma alguma aleatória. A mesa costuma estar colocada numa zona periférica do espaço deixando a ocupação do centro para outro tipo acontecimentos formais evocativos de outras referencias, sempre com mais impacto e alusivas à dimensão universal dos portugueses. Costuma também ser colocada um elemento vegetal frondoso que tanto pode ser uma arvore como um muito vulgar “caramanchão” numa atitude de claro distanciamento em relação ao divino, como que se esse posicionamento proporcionasse uma filtragem necessária ao homem enquanto ser pecador. Por sua vez as cadeiras são também posicionadas de forma a criar todo um sistema de referências geográficas alusivas à rosa-dos-ventos, aos descobrimentos e à circum-navegação. São normalmente quatro, embora por vezes secundadas por outras tantas. A sua colocação é cuidadosa e em função de quem a ocupa, velhos e outros, menos velhos, mas igualmente a beneficiar de uma reforma, quase sempre antecipada.
Uma das cadeiras fica colocada no sentido do liceu, de onde vem as catraias com roupas modernas que dá para catrapiscar. Outra voltada ao caminho, quem desce da Câmara Municipal. O presidente às vezes vem por ali, e dá para lhe dar uma palavrinha sobre aquele assunto… Uma outra voltada à via publica, para aqueles que sempre param o carro no proibido poderem estar atentos à manobra da policia, esses filhos da… Finalmente a ultima é reservada àquele senhor que tem uma loja e dali pode vigiar as horas dos empregados.
Há quem relacione este triângulo, arvore-mesa-cadeira, com a vela triangular das caravelas, sendo que as variadas posições da cada cadeira correspondem à versatilidade do comportamento das velas em relação aos ventos. Pessoalmente julgo ser um exercício metafórico demasiado exacerbado.
Certa, certa, é a influência nórdica no jardim português, através do uso preferencial para este tipo de espaço, o jogo da Sueca.




Jardim Brasileiro - É o mulato, essa maravilhosa criação da lusofonia, que distingue de todos os outros o Jardim Brasileiro. O mulato e Robert Burle Marx.
Depois de Burle Marx nada ficou como dantes. Aproveitando tudo o que apreendeu na Europa relativamente à arte moderna, Burle Marx “desbravou” a flora brasileira em busca de novas espécies, novos arranjos, novos jogos cromáticos de flores, folhas e outros elementos, com os quais pintou os seus jardins. Burle Marx fez no paisagismo o que outros fizeram na tela com óleos e acrílicos, e abriu novos mundos ao Brasil e ao mundo.




Só para finalizar e voltando à questão do betão, que é o melhor amigo do homem, logo depois do cão. Uma coisa é limitar a influência de um determinado grupo social na construção de uma cidade, outra é cercear as potencialidades criativas associadas a um meio específico.
Há no Porto muita pedra que podia bem ser substituída por betão, e se fosse por jardins, ainda melhor.

3 comentários:

RS disse...

SEM PALAVRAS!!!!!

avelino disse...

Caro Daniel,

Bem giro este post. Alé de giro é bem feito.
Faltam os jardins suspensos, que tem origem na babilónia num erro de tradução de "sobrepostos" em vez de suspensos.
Também podiam ser muito bem aplicados em cima de muito betão w/ou alcatrão.

Anónimo disse...

Não vê ninguêm nos Jardins da Av. dos Aliados?
Então veja que vale a pena!